Escrito por Luiz Carvalho, de Brasília
26/11/2009

Paulo Freire recebe anistia política e Paul Singer aponta necessidade de expandir a democracia para além do voto
Ana Freire defende anistia
O terceiro dia de debates do Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica, que acontece no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, começou nesta quarta-feira (26) de forma memorável.
Antes do início da mesa inaugural, a Comissão de Anistia, ligada ao Ministério da Justiça, promoveu o julgamento do processo de anistia política de Paulo Freire.
O educador pernambucano foi perseguido pelos militares por praticar um método pedagógico popular que busca aguçar o senso crítico, valorizar a experiência pessoal no processo de educação e coloca o ensino a serviço da conscientização e da autonomia do cidadão. As idéias libertárias o levaram à prisão, após o golpe de 1964 instalar a ditadura no Brasil e acabar com o Plano Nacional de Alfabetização (PNA), que Freire havia criado e começava a colocar em prática durante o governo João Goulart.
Ao deixar a cadeia, Paulo Freire teve de se exilar e passou 16 anos aplicando seu conhecimento no exterior e lecionando em instituições como a universidade de Harvard.
Voltou ao País apenas em 1980, onde permaneceu até morrer.
Culpado por lutar pela igualdade – Na defesa do pedido de anistia, o relator do processo e um dos conselheiros da comissão, Edson Pastori, lembrou que Roberto Freire foi acusado de "mudança ou tentativa de mudança da ordem política.”
Logo depois, Ana Freire, esposa com quem viveu até os últimos dias e requerente do pedido, subiu ao palco para destacar a importância da anistia para resgatar a cidadania plena, sem lacunas.
Culpado por lutar pela igualdade – Na defesa do pedido de anistia, o relator do processo e um dos conselheiros da comissão, Edson Pastori, lembrou que Roberto Freire foi acusado de "mudança ou tentativa de mudança da ordem política.”
Logo depois, Ana Freire, esposa com quem viveu até os últimos dias e requerente do pedido, subiu ao palco para destacar a importância da anistia para resgatar a cidadania plena, sem lacunas.
Em seu discurso, ela lembrou da dor que Freire sentia pela saudade e por ver negada sua condição de brasileiro. “Hoje celebramos um homem que amou visceralmente o povo do nosso País”, citou, entre lágrimas.
Durante a votação do requerimento, a conselheira Ana Maria ressaltou uma das anotações da ABIN (Agência Brasileira de Informação) sobre Paulo Freire: “vinha comunizando o nordeste brasileiro com seu método revolucionário”, uma espécie de elogio partindo de um órgão do regime autoritário.
Por unanimidade, a solicitação foi aprovada.
“Estamos diante da oportunidade de pensar em cada um dos brasileiros que viveram e ainda vivem a exclusão do acesso à educação. Foram eles os maiores prejudicados pela perseguição a Paulo Freire e ao PNA. Nós nos dirigimos à senhora - referindo-se à Ana Freire – e pedimos desculpas oficialmente pelos erros que o Estado brasileiro cometeu”, finalizou Paulo Abrão, presidente da Comissão de Anistia.

Paul Singer (em pé) falou sobre o papel inclusivo da educação
Educação e democracia – A primeira mesa discutiu educação, ética, inclusão e diversidade.
O diretor do Instituto Paulo Freire e relator do debate, Moacir Gadotti, iniciaram sua palestra ressaltando que Freire se preocupava também com os exilados internos. “Ele só será amplamente anistiado quando não houver nenhum analfabeto no País”, disse.
Para o diretor do Centro Songhai, em Benin, Frei Godfrey NZAMUJO, a luta contra a pobreza deve ter como referência a produção sustentável e a oferta de serviços que correspondam à necessidade dos pobres. “Temos quatro bilhões de pessoas de baixa renda cujas necessidades não são atendidas”, falou.
NZAMUJO defende a organização de um novo sistema educacional que valorize o conhecimento aliado à habilidade e a um conjunto de valores que inclui a honestidade, a disciplina e a ética nas comunidades.
A seguir, o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, Paul Singer, indicou o papel da educação no processo de inclusão. “O ensino é o passaporte que permite à pessoa ingressar na economia e ao mesmo tempo exclui socialmente quem não possui escolaridade”, analisou.
Ele atacou ainda a idéia de que o conhecimento provém exclusivamente dos bancos escolares. “Na nossa sociedade hipócrita se supõe que mais escolaridade significa mais conhecimento e isso serve para explicar as desigualdades sociais.”
O professor fez questão de destacar a importância de programas sociais como o EJA (Educação de Jovens e Adultos), e o Pro - Uni, mas ponderou que o aumento do número de pessoas com diploma, por si só, não é capaz de mudar a estrutura social e econômica. “A economia tem que crescer com taxas correspondentes à inclusão educacional para mexermos com essa realidade”, destacou.
Singer terminou com duas propostas para superar o desafio da discrepâncias sociais: intensificar a luta por direitos sociais – salários decentes, serviço público capaz de atender a todos – e o acesso democrático aos meios de produção. “Para lutar conta a grande desigualdade econômica, é preciso que todos posam dividir o poder e tenham capacidade de decisão. Isso se chama economia solidária. Precisamos criar um ambiente em que a diversidade possa se desenvolver e a democracia não se restrinja ao direito de votar e ser votado.”
Durante a votação do requerimento, a conselheira Ana Maria ressaltou uma das anotações da ABIN (Agência Brasileira de Informação) sobre Paulo Freire: “vinha comunizando o nordeste brasileiro com seu método revolucionário”, uma espécie de elogio partindo de um órgão do regime autoritário.
Por unanimidade, a solicitação foi aprovada.
“Estamos diante da oportunidade de pensar em cada um dos brasileiros que viveram e ainda vivem a exclusão do acesso à educação. Foram eles os maiores prejudicados pela perseguição a Paulo Freire e ao PNA. Nós nos dirigimos à senhora - referindo-se à Ana Freire – e pedimos desculpas oficialmente pelos erros que o Estado brasileiro cometeu”, finalizou Paulo Abrão, presidente da Comissão de Anistia.

Paul Singer (em pé) falou sobre o papel inclusivo da educação
Educação e democracia – A primeira mesa discutiu educação, ética, inclusão e diversidade.
O diretor do Instituto Paulo Freire e relator do debate, Moacir Gadotti, iniciaram sua palestra ressaltando que Freire se preocupava também com os exilados internos. “Ele só será amplamente anistiado quando não houver nenhum analfabeto no País”, disse.
Para o diretor do Centro Songhai, em Benin, Frei Godfrey NZAMUJO, a luta contra a pobreza deve ter como referência a produção sustentável e a oferta de serviços que correspondam à necessidade dos pobres. “Temos quatro bilhões de pessoas de baixa renda cujas necessidades não são atendidas”, falou.
NZAMUJO defende a organização de um novo sistema educacional que valorize o conhecimento aliado à habilidade e a um conjunto de valores que inclui a honestidade, a disciplina e a ética nas comunidades.
A seguir, o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, Paul Singer, indicou o papel da educação no processo de inclusão. “O ensino é o passaporte que permite à pessoa ingressar na economia e ao mesmo tempo exclui socialmente quem não possui escolaridade”, analisou.
Ele atacou ainda a idéia de que o conhecimento provém exclusivamente dos bancos escolares. “Na nossa sociedade hipócrita se supõe que mais escolaridade significa mais conhecimento e isso serve para explicar as desigualdades sociais.”
O professor fez questão de destacar a importância de programas sociais como o EJA (Educação de Jovens e Adultos), e o Pro - Uni, mas ponderou que o aumento do número de pessoas com diploma, por si só, não é capaz de mudar a estrutura social e econômica. “A economia tem que crescer com taxas correspondentes à inclusão educacional para mexermos com essa realidade”, destacou.
Singer terminou com duas propostas para superar o desafio da discrepâncias sociais: intensificar a luta por direitos sociais – salários decentes, serviço público capaz de atender a todos – e o acesso democrático aos meios de produção. “Para lutar conta a grande desigualdade econômica, é preciso que todos posam dividir o poder e tenham capacidade de decisão. Isso se chama economia solidária. Precisamos criar um ambiente em que a diversidade possa se desenvolver e a democracia não se restrinja ao direito de votar e ser votado.”

Silvia Manfredi aponta importância do saber informal
O saber na prática – À tarde, o diálogo sobre a importância da valorização do conhecimento adquirido pela prática continuou.
A diretora geral do Cégep Marie-Victorin, Nicole Rouillier, apresentou um programa adotado em Quebeque, Canadá, que une os aprendizados formais e informais. O sistema Arap surgiu para certificar os chamados conhecimentos práticos e determinar os treinamentos necessários para obtenção de um diploma. A ação é útil, por exemplo, para validar os saberes de imigrantes que possuem documentos escolares não reconhecidos pelas autoridades canadenses. “O mais importante é o que ele aprendeu e não o lugar ou as circunstâncias em que aprendeu”, acredita.
Presidente do Instituto Paulo Freire na Itália, Silvia Maria Manfredi, analisou as concepções políticas e ideológicas por trás dos conceitos de saber formal e informal. “Eles indicam diferença de poder, de valor e de hierarquia. Quando o saber formal é considerado mais importante e se torna direito de poucos, isso é sinal de exclusão”, classificou.
Para ela, é preciso valorizar o saber não formal por meio de políticas públicas que ofereçam certificação profissional. “Precisamos de um mecanismo institucional que valide aptidões a partir da experiência vivida. Nosso sonho é que no futuro tenhamos técnicos reconhecidos também por aquilo que aprenderam no decorrer da vida, como já acontece em países como França”, defende.
Atualizado em ( 26/11/2009 )
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